terça-feira, 4 de julho de 2017

Enfim nós, a sós, soberano Saturno.



E volta Saturno com seus anéis longos e esbeltos. E retorna o planeta ao meu encontro, girando. Não entendo de astrologia, mas como ando cansada de escrever por obrigação retorno às letras para pensar nos efeitos do retorno de Saturno em minha vida.
Fico pensando nas cobranças que o planeta anda me trazendo. O que eu venho maturando, gerindo e criando para esse mundo, que às vezes, me  empurra para fora.
Mas estamos aqui. Girando com ele, respirando mais fumaça do que ar puro, bebendo mais do que o nosso fígado aguenta, tomando pílulas para dor de cabeça e ressaca, tentando recitar um mantra aqui e acolá para dar conta do que é estar vivo nesse cenário estranho de tempos temerosos composto de temers, aécios e bolsomitos.
Aqui estamos e seguiremos, pelo menos por um bom tempo.

E eu, vou aprendendo a girar com esses anéis que se aproximam do dia no meu nascimento, que me atravessam de jeito pelos tapas da vida.
Quando criança me imaginava "muito adulta" aos 28 anos. "Muito adulta" significava na minha imaginação infantil de criança, ser mãe de muitos filhos. Mas, o único filho que tenho, se é que, se assim posso chamar, é uma tese de doutorado, a qual por sinal anda me dando mais dores de cabeça do que alegria.
Minha surprese hoje, aos 28 anos é essa: de me ver assim, Mirela.
O que é ser Mirela? Olho ainda para o reflexo.
Vejo minha imagem e tento traçar um diálogo com minhas sobrancelhas,
- Ai, não sei.
- To aprendendo, confesso. Tá meio foda.
-Tá olha o drama. Ok, menos
(Fala o sol em câncer para a lua em leão)
- Menos, tá bem? Menos...
(Fala a lua em leão para o sol em câncer)
- Dói fia, eu sei.. Dóis mais passa, viu. Aguenta que tem mais

E olho-me um pouco mais de perto. Reparo naqueles primeiros sinais e rugas. Penso no que é ser isso que a gente se inventa de ser.

"Ser Mirela é confundir ainda direita com esquerda, se perder em qualquer conta boba de matemática. É cantar errado e mesmo assim continuar cantando. É cortar o cabelo para se reinventar, ou se descobrir. É fazer mais uma tatuagem, e se perder nas contas de quantas já tem. É não ter certeza de nada do que é".

E, enfim, essa é a sua vida agora.
- Isso que você quer ser:  mulher, estudante, artista, sei lá mais o que. Porque você sabe que tudo pode mudar no futuro. Quando você tiver suas mechas brancas e sua horta, roupa neo hippie, meio assim, quando você se tornar, de fato, essa pessoa"espiritualizada", que você tanto busca ser.

Mas agora é aqui, certo? No centro do seu mapa natal. Meu renascimento. Hoje, aos 28 anos. Aqui, ainda com as minhas dúvidas. Sou esta: nem mais, nem menos do que imaginava aos meus 20 anos.
Pensando na volta de Saturno, nos seus dedos pontudos cheios de anéis. Ele que circula em mim, me circulando no mundo: trazendo mais surpresas. De me ver amando e cheia de vida com uma outra pessoa, tão linda e tão parecida comigo. Eita amor que já não esperava encontrar devido às peripécias de uma migrante, que já morou em tantos lugares. E agora se centra, ou se diluí, na experiência de residir numa ilha - ou em seu continente.
De me ver assim nos traços de minha família, que residem nas minhas feições e olhar. Miro ainda,  o desejo de amá-los.
Miro-me:
Recolhendo os afetos diários deixados nas ruas: nas pequenas flores das calçadas, no caminhar dos casais velhos (ah..os meus preferidos) nos cachorros vagabundos que tomam sol de tarde ( minha inveja).
E na arte, esse buraco que ando metida há tanto tempo.

...

Volto os olhos depois de mirar, namorando-me demoradamente.

E quando eu olho bem para as fotografias, me assusto ao ver que sou essa pessoa que me construo diariamente para ser:  essa. Nada mais, nada menos. Ainda confusa, tonta com tantas ideias e desejos. Meio com aquele olhar de criança interiorana, só que agora com olheiras, mais cansada, mais ansiosa, e mais medo. E busco por fim aquela criança, desbravadora de paraísos, para sentar ao meu lado e me dizer: "tá tudo bem fia, dói mais passa. Vai, tá tudo bem. É que essa coisa de ser esquista, não é pra todo mundo".




segunda-feira, 26 de junho de 2017




eu faço poema
para fazer infernos
rasgar paraísos com os dedos de tinta
na folha,
em que caminho com as minhas asas
de anjo decadente
dançando com os outros
os anjos mais bonitos
e suas trombetas apocalípticas
tão desafinadas quanto o meus sonhos
por isso orquestro o teatro
com as mãos
com a boca
com esse corpo
profano
que dança fora da alma
quando ela está perdida
em qualquer canto
pedindo a escrita sem nome
de toda poesia
que tenho em mim
essa que convido
para dançar
no hoje,
de um tempo sem fim
que eternizo
no caos das letras
purgatórias
porque eu faço poemas
para fugir dos infernos
e zombar dos anjos,
que sempre são mais bonitos.

terça-feira, 28 de março de 2017

Diálogo com as plantas I



o que é o amor em tempos desses
cinzas?
em um céu que sinto dos primeiros ventos de outono
virados em minha janela, cama, travesseiro
chamando a mudança do calendário
atordoando-me os temores de uma era terceirizada
fria
inóspita
inábitavel
porém viva, aqui: presente.
como abraçar os nossos fracassos
errâncias
 desejos
e ainda, ou antes de tudo
amar?
no turbilhão de uma terra desgragmentada
vazia
como posso, ainda ter amor?
penso enquanto rego minhas plantas que sempre crescem
tão verdes e bonitas
e lembro
que a vida é firme
verde em sua existência.
e por isso amo,
porque amar em tempos tão brutos
é resistência.











quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017



ao desempoeirar
partículas
de desejos que guardo
para fazer luz
e de muita claridade
respirar o sol
clara
translúcida, morena
tornar tudo leve
mesmo quando
em poeira
vivo
quieta e serena
abrir portas, janelas, cartas, gavetas
e escrever, sempre;
poemas.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017



provisório fulgor
das coisas
fugidias
amor
que é fogo imparável
e incendia
as camas
os sonhos
comendo vorazmente
corações
e os seus donos
até não não deixar mais nada
só o caroço
que não é vazio
oco
porque se torna morada
de um corpo
repleto de desejos
abertos
para a ponte invisível
que cresce até outro
sensível
ensejo
labareda
de um efêmero e tão forte
incêndio
...





quarta-feira, 25 de janeiro de 2017



eu não sou a mais bonita,
na verdade
a beleza que escondo nos cantos de qualquer memória
me foi concedida por outros olhos
modos
formas e janelas
que mantenho incessantemente abertas
porque no fundo,
me queriam bonita
mas não sei ser
e já não posso
porque sou do interior e criada na merda de vaca
e escrevo
ou por não ser comedida
porque guerreio com minhas pernas
atravessadas
o caminho itinerante que não me permite tal beleza
esmero
realezas
de uma coroa que sento e rebolo
jogo fora
entre todas, as meninas
não serei escolhida
para o altar,
festas chiques
aristocráticas
desculpa, mas não faço o tipo
sou essa
verborrágica
toda errada
e sem rumo certo
a que diz não
e basta;
mas
ainda assim
mesmo apesar de tudo,
de suas bulas, e controles, receitas,
que contra luto
de papeis que mastigo
e engulo
talvez eu apareça, numa fotografia antiga
para um possível futuro
quieta
sentada de lado, com um meio sorriso escancarado
fingindo que compadeço
pertenço
a sua modalidade,
ao vestido,
mas não, jamais
eu não faço
o seu número.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

esta aqui agora,
sentada sob o próprio corpo
cansado
repousa sob suas próprias pernas
do voo
um pouso
uma pausa
para cada suspiro do dia
que cai lentamente
para dar o lugar à noite
esta aqui agora
somente
cruza seus braços
repousa a cabeça
para assistir o espetáculo
monótono do fim do dia
porque é bonito e basta
porque a beleza
diária
é besta
e,
rara.

...



segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

escritos de verão

E se por acaso os sons da rotina não passassem demasiadamente devagar, como encontro dos nossos olhos. Ou se fossem um pouco menos mornos, e mais quentes, como as tardes de janeiro. Talvez, assim, na velocidade dos minutos, que teimam em passar devagar sob nossas retinas, janelas e horizontes... Eu poderia hesitar menos a cada mergulho, pois pesaria junto ao relógio, que queima as horas das tardes quentes e tão repletas de suor.
Gastaria mais tempo com poesia, ou com prosa besta. Dessas que invento quando falo com as plantas ou vizinhos, diluindo-me  com tempo para não me desfazer só. Para ser ele, também. Para não ser sozinha.
Então, poderia dizer que minha finitude se inicia no fim das pequenas coisas, por mim ainda não experimentadas. Ainda. Todas. Em doses homeopáticas de tédio e ternura. Assisto o entardecer de borboletas tépidas em seus voos de graça. Logo, em meu suor e presença assistiria pausadamente o falecer dos segundos, pairando em minha língua ávida. Porque viverei dessa forma até ultrapassar a borda do silêncio, da minha pausa. Experimentando suavemente os gostos do mundo, o qual se abre a cada caminho que vivencio nas trajetórias de um corpo lançado ao leo. É porque gosto muito e não pouco. Gosto tanto, e sempre. Das tardes e noites de janeiro.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

metade carne
outra de fome
esse ser eu,
já sem nome
perde-se em cada rua, esquina,
em dedos de poesia ou prosa,
na vida
nos encontros
sou
ou estou
por ora,
num ritmo constante
de minha pura impermanência.
















segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

chego em casa,
passo o café
rego as plantas
vejo a paisagem
até diluir-me com ela
enquanto o dever pede
somente letras de trabalho
meu papel, todo em branco e translucido
se consome na poesia da tarde morna, aberta pela janela.
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