quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

escrita pela pele
de paisagens marcadas
por trajetos
que em mim são tatuados
tinta cravada
é a memória que carrego
o meu fardo
não nego,
não mais,
pois me entrego
aos braços
de estranhos lugares
que me atravessam
por ora, como lares
mas escuto a língua que não entendo
a mudez do tocar
estrangeira de meu lar
seria eu, então,
sombra nômade?
carcaça errante?
surda
ou sem lugar?
e pela agulha se faz
o traço
que em toda minha pele,
face
se revela
a marca
o meu código
minha tinta de poeta

sábado, 24 de dezembro de 2011

Sobre o pão e o tempo



Talvez os tempos sejam particulares
cada um partilha do seu,
como lhe cabe.
A beleza mora, portanto, em tempo rachado
Quando o dividimos em dois, três, quatro.
Servidos em ceia farta
Comendo junto às experiências servidas à mesa
tornamo-nos janta e sobremesa
um do outro.
E no milagre da antropofagia
percebemos que só existimos pelo encontro
no momento em que damos
 fatias largas ou pequenas
doces ou amargas
de tempo.
Tempos felizes ou tortuosos
Que durante a ceia da vida
são postos
para que sejam divididos
tornando-se
nossos.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Pororoca


Em todos os fins das águas
deságuo
no infinito próspero das palavras
Mar que inconscientemente percorro
E sou percorrida
Nuvem diáfana
Transparente e clara
Paradoxalmente
tão nítida,
que como espelho d’água
reflete a imagem:
O retrato de minha mente e alma
o “eu”
como o devir de uma mar em ressaca.
E esse rosto?
Pernas?
Mãos?
A quem pertencem?
Se os meus olhos tocam
em ondas
as suas mãos...
Atravesso todas as suas fendas
cavidades e vãos..
deságuo numa profundidade
em sua pele,
pelo toque de meu olhar
Olho-epiderme.
Perdoa-me
por tal intimidade.
Mas decorro seu corpo em águas
navego seus rios,
transponho-me até sua ilha
Sua solidão inabitada.