quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Pororoca


Em todos os fins das águas
deságuo
no infinito próspero das palavras
Mar que inconscientemente percorro
E sou percorrida
Nuvem diáfana
Transparente e clara
Paradoxalmente
tão nítida,
que como espelho d’água
reflete a imagem:
O retrato de minha mente e alma
o “eu”
como o devir de uma mar em ressaca.
E esse rosto?
Pernas?
Mãos?
A quem pertencem?
Se os meus olhos tocam
em ondas
as suas mãos...
Atravesso todas as suas fendas
cavidades e vãos..
deságuo numa profundidade
em sua pele,
pelo toque de meu olhar
Olho-epiderme.
Perdoa-me
por tal intimidade.
Mas decorro seu corpo em águas
navego seus rios,
transponho-me até sua ilha
Sua solidão inabitada.  

domingo, 18 de dezembro de 2011



Desbotado em algodão
Faço o verso como quem veste um vestido
- que não é bonito.
Mas no clarão da luz do dia
resplandece o rasgão
do pano simples e sem serventia
se faz a pureza
de toda a poesia.
E nas manhãs
feitas de cor e café
banho as frases em tinta
dando ao descrente a fé
e o desejo de mais um dia.
Faço então
pelo sol que irradia
os traços
de minhas linhas,
que são avessos, pedaços
de costuras
Em rimas

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Digestão

E o que se faz?


Pra onde vão todos os momentos,

onde meto?

Vasculho a memória

Pego pelo dedo

Seguro pela ponta

Percorro o próprio estar

Que é esse agora,

O sendo.

É isso? Sou escrava do instante?

De meus próprios pensamentos?

Onde estão as janelas?

Abram-se,

Faça escapar todo esse sentimento:

Esse bicho de ser e estar sendo,

Que come e é comido

e em estado constante de devoramento.

Deixe correr

O presente fugido.

Pois a lembrança eu pego pelo dedo

E se tudo vai sendo engolido,

Já que as janelas de mim têm fechos

Tudo brota escondido

Em lugares que desconheço.

É como um processo de digestão,

Sem fim ou começo.

Como e sou comida pela doença que padeço:

Do ser em contradição

Que não se fixa ao tempo.